Kate Johnson

22 de setembro de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso  Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2  .

Uma em cada 10 gestantes internadas (com gestação avançada ou incipiente) foi diagnosticada com covid-19, das quais, até três quartos eram assintomáticas no momento do diagnóstico, de acordo com uma revisão sistemática viva do PregCOV-19 Living Systematic Review Consortium.

O estudo, que foi  publicado no periódico BMJ , mostrou aumento do risco de parto prematuro, bem como de necessidade de ventilação invasiva nessas mulheres, escreveu o Dr. John Allotey, Ph.D., da University of Birmingham, na Inglaterra, e colaboradores. Os achados “produzirão uma base forte de evidências para diretrizes vivas sobre covid-19 e gestação”, segundo os autores.

A revisão sistemática incluiu 77 estudos, dos quais, um terço era proveniente dos Estados Unidos, outro terço da China e o restante da Bélgica, do Brasil, da Dinamarca, da França, de Israel, da Itália, do Japão, do México, da Holanda, de Portugal, da Espanha e do Reino Unido.

Os estudos incluíram mulheres com covid-19, dentre as quais, 13.118 eram gestantes, puérperas ou haviam sofrido abortamento, e 83.486 estavam em idade reprodutiva, mas não estavam grávidas. Alguns estudos também incluíram gestantes hígidas para comparação.

Os sintomas mais comuns da covid-19 entre mulheres com gestação avançada ou incipiente foram febre (40%) e tosse (39%), e os achados laboratoriais mais comuns foram linfopenia (35%) e níveis elevados de proteína C reativa (49%). Mulheres com gestação avançada ou incipiente com covid-19 tiveram menos chance de apresentar febre (razão de risco ou odds ratio, OR, de 0,43) e mialgia (OR de 0,48), em comparação com aquelas em idade reprodutiva que não estavam grávidas, relataram os autores.

As taxas globais de parto  pré-termo  e espontâneo nas mulheres com covid-19 foram de 17% e 6%, respectivamente. Dr. John e colaboradores pontuaram que “esses partos prematuros podem ter tido indicação clínica, pois as taxas globais de partos prematuros espontâneos em gestantes com covid-19 foram muito semelhantes às observadas antes da pandemia”. Houve 18 natimortos e seis mortes neonatais na coorte covid-19.

No total, 73 (0,1%) das gestantes com covid-19 confirmada morreram por “todas as causas”, e 13% apresentaram quadro grave em função da infecção pelo SARS-CoV-2. Os fatores de risco maternos associados à infecção grave foram: idade avançada (OR de 1,78), índice de massa corporal alto (OR de 2,3),  hipertensão arterial sistêmica  crônica (OR de 2,0) e diabetes pré-existente (OR de 2,51). Em comparação com as mulheres em idade reprodutiva que não estavam grávidas diagnosticadas com covid-19, aquelas com gestação avançada ou incipiente tiveram maior risco de serem internadas na unidade de terapia intensiva (OR de 1,62) e de precisarem de ventilação invasiva (OR de 1,88).

O artigo incluiu estudos publicados entre 1º de dezembro de 2019 e 26 de junho de 2020, mas a revisão sistemática viva continuará a fazer buscas semanais. As análises serão realizadas a cada duas a quatro semanas e publicadas em um site dedicado.

O valor de uma metanálise viva

Convidada a comentar sobre os achados do estudo, a  Dra. Torri Metz , médica e especialista em medicina materno-fetal da University of Utah, nos EUA, manifestou surpresa com a taxa de 10% de infecção entre as mulheres com gestação avançada ou incipiente. “Isso é maior do que o observado atualmente em muitos hospitais nos Estados Unidos”, disse a médica em uma entrevista. “Isso pode superestimar o risco real, pois muitos desses estudos foram publicados no início da pandemia e não incluíram uma amostra universal de gestantes com SARS-CoV-2.”

Ela destacou o valor de uma metanálise viva, que será atualizada à medida que as novas evidências surgirem. “Durante este período de rápido acúmulo de publicações sobre a infecção pelo SARS-CoV-2, será útil para os médicos dispor de um recurso onde os dados disponíveis possam ser combinados em uma única fonte.”

E ainda há algumas questões sem resposta que, espera-se, os novos estudos esclarecerão, ela acrescentou. “Os autores descobriram que muitos dos fatores de risco de doença grave, como diabetes,  obesidade  e hipertensão arterial sistêmica em adultas não grávidas são os mesmos na população de grávidas. O que ainda não sabemos é se as pacientes gestantes com covid-19 têm mais risco de ter a doença do que aquelas que não estão grávidas. Os autores disseram que essas informações ainda são limitadas e bastante influenciadas pela análise de um estudo do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos EUA, no qual a maioria das pacientes não tinha informação sobre se estavam grávidas. Também não sabemos se a infecção pelo SARS-CoV-2 está associada a algum problema congênito, uma vez que a maioria das mulheres com infecção pelo SARS-CoV-2 no primeiro trimestre ainda não pariu.”

A  Dra. Malavika Prabhu , obstetra e ginecologista da Weill Cornell Medicine, nos EUA, acrescentou: “Esta revisão sistemática e metanálise, que é uma compilação de estudos feitos em todo o mundo, confirmou que gestantes com doenças preexistentes, como diabetes, hipertensão arterial sistêmica e obesidade, têm mais risco de covid-19 grave e que gestantes com covid-19 têm mais risco de precisar de ventilação invasiva, em comparação com mulheres não grávidas com covid-19 – especialmente se tiverem uma doença preexistente.”

Ela disse que a taxa de partos prematuros entre mulheres com covid-19 é “difícil de interpretar, visto que a taxa total potencialmente incluiu muitos partos prematuros por indicação médica – o que é esperado – e não há nenhum grupo de comparação para parto prematuro espontâneo”.

Outras questões ainda sem resposta sobre gestação e covid-19 são: se estão associadas à  pré-eclâmpsia  ou crianças pequenas para a idade gestacional/com restrição de crescimento, e por que a taxa de  cesariana  é alta, disse ela. “Mas algumas dessas perguntas são difíceis de responder com esses dados, porque eles refletem principalmente uma infecção pelo SARS-CoV-2 próxima ao parto, não uma que ocorreu vários meses antes do parto.”

A  Dra. Deborah Money , médica, professora de obstetrícia e ginecologia, medicina, e da escola de saúde pública da University of British Columbia, no Canadá, comentou que “este é um grupo que tem feito revisões sistemáticas vivas da literatura buscando dados sobre desfechos na gestação. Eles publicam informações em tempo real em seu website, portanto, muitos de nós nesta área acompanhamos essas postagens, pois a metodologia é robusta e eles trabalham duro para incluir apenas artigos de alta qualidade e evitar a duplicação de casos em vários trabalhos. O relato dos mesmos casos graves de covid-19 na literatura tem sido um problema”.

Isso “aumenta a importância de obtermos dados específicos do Canadá para garantir que nós compreendemos se esse tipo de desfecho também será encontrado no Canadá. Os dados apresentados neste artigo representam desfechos de uma ampla gama de países com diferentes métodos de coleta de informações sobre a gestação e sistemas de cuidados pré-natais muito variados. Isso torna nosso estudo canadense sobre desfechos da covid-19 em gestantes e em sua prole, o CANcovid-Preg, ainda mais importante”, disse ela.

“Globalmente, todos nós devemos continuar monitorando os desfechos da covid-19 na gestação para minimizar o impacto adverso nas mulheres e em sua prole”, disse a Dra. Deborah, que não participou do estudo.

O estudo foi parcialmente financiado pela Organização Mundial da Saúde e pela Katie’s Team, um grupo de participação pública dedicado a pacientes na área de Saúde da Mulher. A Dra. Torri Metz é a primeira autora do estudo Maternal-Fetal Medicine Units Network covid-19 do Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development (NICHD); o estudo está sendo financiado pelo NICHD e está recrutando participantes. A Dra. Malavika Prabhu informou não ter conflitos de interesses relevantes. A Dra. Deborah Money recebeu financiamento dos Canadian Institutes for Health Research e da Public Health Agency of Canada, além de uma pequena doação da BC Women’s Foundation for covid-19 para pesquisas sobre gestação.

FONTE: Allotey J et al.  BMJ. 2020;370:m3320 .

Este conteúdo foi originalmente  publicado  em MDedge — Medscape Professional Network.

 

Fonte: univadis

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